quinta-feira, outubro 26, 2006

"O sistema educativo morreu"

Não simplifiquemos nas respostas e, muito menos, nas perguntas. Os objectivos que a escola foi visando ter-se-ão centrado, genericamente, numa base instrumental, utilitária, sujeita a modos e a modas, cujo apogeu se terá atingido, recentemente, com a publicação de rankings. Não desejamos polemizar. Façamos tão só uma pergunta retórica: Não será obsceno colocar na grelha de partida um "2 CV" e um "Ferrari" e pretender seriá-los à chegada?
O sistema educativo morreu. Paz à sua alma. Coveiros ultraliberais foram-lhe anunciando o funeral. Vejamos o que nos reserva o sistema instrutivo que advogam. Aos "filhos de Rousseau", condenados por uma opinião publicada (que, porventura, nunca leu Rousseau) (a)parece contraposto o robot como modelo. Obviamente, essas vozes não o dizem, mas, ao escondê-lo, são ainda mais imorais.
Quem vaticinou isto? Foi, em primeiro lugar, a leviandade dos que pensaram que tudo se consegue sem esforço; foi, depois, a generosidade dos que só falavam em direitos, esquecendo os deveres; ora, de direito que a escola é, depressa passa a ser vista como obrigação e, mesmo, como pesadelo. Foram, depois, vozes apocalípticas pairando, negras, sob os céus educacionais; foram ameaças de hecatombe escurecendo, em vendaval de chumbo, os horizontes da sala de aula. Foram ácidas Cassandras da República chorando, inconsoláveis, a educação dos seus "filhos" e repetindo, dolentemente, toadas de carpideiras em transe; caladas agora, saboreiam os despojos...
Parece que só nos resta cantar hossanas às "irmãs máquinas". Elas não adoecem, não têm insónias, não sofrem de reumatismo; têm informação abundante, papagueiam respostas adesivas a perguntas insuportáveis, em programas insuportáveis, de inquiridores insuportáveis. Não resmugam, não espirram, não choram, não se comovem, não têm depressões, não param, não comem; são rigorosas, precisas, "inteligentes", produtivas; não mentem, não invejam, não (se) enganam... São os colaboradores ideais de que necessitava Ford quando exclamava: "Eu só precisava de braços e encontro-me com seres humanos!" Nunca me apeteceu dizer com tanta propriedade que "errar é um privilégio humano...".

In A AULA
Álvaro Gomes, Porto Editora

7 Comentários:

Blogger Maria Lisboa disse...

Exactamente o problema deste governo e muito especialmente desta ME: que raio fazem tantos seres humanos a interpor-se entre eles e as reformas (magnifícas !) que eles previram para os robôts do seu país?!

9:17 da tarde  
Anonymous Maria, Porto disse...

"Nesta visão da escola, ao professor-oleiro ou escultor corresponderia o aluno-vasilha ou contentor, numa espécie de "educação bancária". Este aluno não é. Este aluno serve para, porque da sua "capacidade" de absorção irá depender, em parte, a sua função social.
Como poderia tal escola não acabar, fatalmente, num ranking?..."

In A ESCOLA, Álvaro Gomes.

Pois é. A preocupação deste autor com a Educação é recorrente em todas as suas obras. Ainda bem que alguém dá por isso. Pelo meu lado, vou lendo e aprendendo...

4:50 da tarde  
Blogger IC disse...

Ao ler o título deste post tive, de repente, a consciência de que é isso que ando quase a sentir, a pensar (quase, porque acredito que o Sistema Educativo esteja apenas em coma e venha a recuperar, receio é que não a curto prazo). Sabes, Henrique, para quem foi professora durante 37 anos, começando antes de Abril, a situação presente está a parecer tão contrária a tudo o que acreditei e investi! E penso nos tantos professores que têm ainda bastantes anos para permanecerem nesse barco da educação-ensino desejando que tenham força para remar contra a maré e não afundarem com o barco.

P.S. Vou procurar Álvaro Gomes, autor que não conheço, só me foi revelado aqui.

7:01 da tarde  
Blogger zoltrix disse...

Dizer que " está morto e enterrado" só que ainda não o sabemos, parece-me cinismo. É por isso que o não vou dizer....

Deixa-me tentar outra vez!
Enquanto há vida há esperança. Bááh! Qual vida qual esperança...
Os sindicatos estão é a levar muito tempo para agendarem já outras acções de luta!
Só está perdido o que se perde!
Ainda não se perdeu nada!!!!!!

12:13 da manhã  
Blogger soledade disse...

Será que não se perdeu nada? Estou desanimada. Viram as últimas da reunião negocial de ontem? Eu já passo, em muitos dias, 10 a 12h na escola. Sei bem o estado em que de lá saio, e ainda venho para casa preparar actividades e corrigir trabalhos. É nas interrupções não lectivas que preparo o grosso das aulas e faço leituras de actualização e frequento formação. Agora querem 8h de aulas por dia (terão ideia?!) mais componente não lectiva?! E fim das interrupções lectivas para professores?! Luna-parque, claro. Só é possível numa escola cuja lógica deixou de ser a do ensino. E, mesmo assim, o sistema entrará em colapso. Tão certo...

4:20 da tarde  
Blogger zoltrix disse...

Como te percebo, Soledade...!

12:28 da manhã  
Blogger Quiron disse...

A escola não existe para abastecer o mercado de trabalho. Os alunos não são matéria-prima nem mercadoria, são os destinatários do ensino. O que se aprende não serve só, nem principalmente, para trabalhar, mas sim para viver.

Creio que o autor deste blog e os comentadores deste post concordarão comigo quanto a estas três afirmações.

Mas provavelmente discordarão de mim nisto: a mercantilização da escola e do aluno, longe de ser contrária ao «pedagogicamente correcto», é a outra face da mesma moeda. E as críticas a essa ideologia feitas por Nuno Crato, Laurent Laforgue e outros, longe de servirem a referida mercantilização, têm as suas raízes numa visão humanista da escola.

Por mim, não vejo como é possível atacar as práticas da Ministra continuando a defender uma ideologia que serve essas práticas.

10:57 da tarde  

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