domingo, outubro 16, 2011

Uma guerra contínua

Na citação longa que se segue, Walter Benjamin situava a contradição básica do capitalismo e trazia-nos as ideias expressas pela estética assumidamente fascista do futurismo de Marinetti. Ele reportava-se aos anos trinta mas, qual a função da guerra imperialista dos dias de hoje senão a mesma dos dias a que ele se reportava? E uma guerra não somente de armas convencionais mas uma guerra manifesta nas sociedades a que pertencemos e explicitada no desemprego, na pobreza, na alienação e na repressão surda. Penso que vale a pena ler esta citação incluída no excelente texto de Benjamin "A OBRA DE ARTE NA ÉPOCA DA SUA REPRODUÇÃO MECANIZADA".

"“Desde há vinte e sete anos que nós, futuristas, nos erguemos contra a afirmação de que a guerra não é estética... Ora, somos obrigados a constatar... A guerra é bela, porque graças às máscaras de gás, aos aterrorizadores megafones, aos lança-chamas e aos pequenos tanques, ela funda a supremacia do homem sobre a máquina subjugada. A guerra é bela, porque inaugura a sonhada metalização do corpo humano. A guerra é bela, porque enriquece um prado florido com as flamejantes orquídeas das metralhadoras. A guerra é bela, porque une os tiros e canhoneios, as pausas de fogo, os perfumes e odores da decomposição numa sinfonia. A guerra é bela, porque cria novas arquitecturas como a dos grandes tanques, das esquadrilhas geométricas de aviões, das espirais de fumo subindo das aldeias em chamas e de tantas coisas mais... Poetas e artistas do Futurismo... recordai estes princípios de uma estética da guerra, para que a vossa luta por uma nova poesia e uma nova plástica... seja por ela iluminada!”

Este manifesto tem a vantagem da nitidez. A sua maneira de pôr a questão merece ser reconsiderada pelo homem de dialéctica. A seus olhos, a estética da guerra contemporânea apresenta-se do modo seguinte. Quando a utilização natural das forças de produção é atrasada e recalcada pela ordem da propriedade, a intensificação da técnica, dos ritmos de vida, dos geradores de energia, tende para uma utilização contra-natura. Encontra-a na guerra, que por meio das suas destruições vem provar que a sociedade não estava madura para fazer da técnica o seu orgão, que a técnica não estava suficientemente desenvolvida para jugular as forças sociais elementares. Nos seus traços mais imundos, a guerra moderna é determinada pela discrepância entre os poderosos meios de produção e a sua insuficiente utilização no processo de produção (noutros termos, pelo desemprego e pela falta de postos de trabalho). Nesta guerra a técnica, insurgida por ter sido frustrada, pela sociedade, no uso do seu material natural, arranca indemnizações ao material humano. Em vez de canalizar cursos de água, enche trincheiras de fluxos humanos. Em vez de semear a terra do alto dos seus aviões, semeia nela incêndios. E nos seus laboratórios químicos achou um processo novo e imediato para suprimir a aura. "

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