terça-feira, junho 12, 2007

"a ilusão democrática"


"...Em que consiste a ilusão democrática? Em se supor que a democracia, só por si, pode resolver as questões fundamentais da sociedade sem atentar previamente nas condições indispensáveis para que ela realmente possa existir. Em tomar a palavra pela palavra sem descer ao fundo do seu significado essencial. Em não se atender ao que há de necessário e exigente nesse encadeamento impiedoso de raciocínios: Democracia é impossível sem inteira liberdade de julgamento; liberdade é impossível sem independência económica; independência económica é impossível em regime capitalista.

Quando penso na aliança bizarra da democracia com o capitalismo, ocorre-me sempre compará-lo a um casamento infeliz. Nos países de elevada cultura cívica, essa aliança conjugal toma o aspecto da de Adrien de Vallade com Clotilde, que Jean Richard Bloch nos descreve na sua magistral Sybilla. O marido, escritor da moda, homem prático, tendo passado as virtudes da mocidade, pessoa sensata e distinta dentro de certo código moral, soube fazer da mulher uma secretária fiel e uma amante agradável; une-a de certo modo à sua obra e às suas conveniências, tudo evidentemente com fartas demonstrações de respeito e delicadeza, mas com um tal alheamento das qualidades intrínsecas da sua companheira, com um tão grande desconhecimento daquilo que é capaz a sua alma superior, que Sybilla pode exclamar, logo desde o seu primeiro encontro - mas tu tens vivido no meio de cegos até hoje!

Nos países de mais baixo nível cívico, o quadro carrega-se de sombras e de tristezas. O homem deixa de ser um escritor considerado, distinto de maneiras, desce e desce na escala social até se transformar em certo tipo de indivíduo para quem os fins justificam todos os meios, todos, inclusive o de transformar a mulher primeiro de secretária em criada para todo o serviço, para depois chegar a obrigá-la a descer à praça pública a vender-se. E, por último, como se ela fosse responsável dos males que o afligem, algema-a, amordaça-a e fecha-a na prisão.

A pobre elanguesce e definha na masmorra fria. E, nostálgicos, definham também os pálidos trovadores que formam seu cortejo romântico. Mas é preciso que esses trovadores se convençam, que não são as suas canções lamentosas que restituirão vida à dama dos seus amores. Enquanto eles se limitarem a cantar, com ou sem acompanhamento de guitarra, ela continuará na posse de um tirano - aquele que a espanca ou aquele que a explora..."


Bento de Jesus Caraça


Excerto de uma Conferência. Incluída no livro "Bento de Jesus Caraça. Semeador de Cultura e cidadania. Inéditos e dispersos." de Alberto Pedroso, Campo das Letras.

Segunto Alberto Pedroso este escrito datará de finais da década de 30 em plenos tempos de chumbo da ditadura salazarista.


5 Comentários:

Anonymous josé manuel faria disse...

Não há socialismo sem liberdade, sem Democracia Política.

1:51 da tarde  
Anonymous soledade disse...

A analogia do casamento é perfeita. E o texto de Bento Caraças, antigo de 70 anos, é de uma actualidade aflitiva.

1:46 da tarde  
Blogger henrique santos disse...

Pois é Soledade. Como gosto de encontrar em grandes homens do passado inspiração para as lutas do presente. Eles, mesmo nos tempos de chumbo do fascismo não esmoreceram. Nós não podemos fazer menos do que eles nos tempos cinzentos que nos vão cobrindo.

4:20 da tarde  
Blogger SL disse...

Henrique, leitores deste blog,

Transcrevo um comentário meu deixado num post mais abaixo, e cuja leitura me deu a volta ao estômago:

"Cruzes, canhoto! Cometi um erro monumental pelo qual tenho de pedir desculpas a todos os envolvidos! Quando no último parágrafo escrevi "os sindicatos da fenprof nem esse nome deveriam ter", deveria ter escrito " os sindicatos da FNE nem esse nome deveriam ter"! Mil desculpas: se há sindicalismo docente sério em Portugal, deve-se à fenprof; pelo contrário, os sindicatos associados à FNE é que nem merecem ser reconhecidos como tal -- como aliás se verifica, agora, e mais uma vez, com as vergonhosas "negociações" estabelecidas entre o governo e a UGT sobre o regime de avaliação dos funcionários públicos.
Que fique esclarecido o erro: se ha sindicalismo sério, é o da FENPROF e não o da FNE. O meu pedido de desculpas a quem se tenha sentido visado. Foi um lapso lamentável."


http://edutica.blogspot.com/2007/06/no-se-enganem-no-alvo.html

10:00 da manhã  
Blogger Maria Lisboa disse...

Problemas de confusões "epistemológicas".

Ainda há quem pense que o demos de democracia tem a ver com demónio... e convencido desse conceito usa-o como tal.

6:07 da tarde  

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