domingo, fevereiro 25, 2007

Exclusões. Inclusões. Insucesso. Sucessos..

Desde o seu início até há algumas dezenas de anos os sistemas educativos das nossas sociedades ocidentais caracterizaram-se por usar, primeiro, o não acesso ou acesso diferenciado, depois as vias de educação diferentes em duração e prestígio, na devida estratificação dos públicos escolares em conformidade com as proveniencias de classe. A divisão de classes tinha nos sistemas educativos um dos mais fortes, entre outros, instrumentos de segregação social. Primeiro, entre aqueles que acediam à escola ou não acediam de todo. Depois entre os que completavam ou não a escola básica. Posteriormente entre os que tinham sucesso e prosseguiam estudos e entre aqueles que não tinham sucesso e não os prosseguiam. Depois ainda entre aqueles que tinham insucessos para prosseguir determinado tipo de estudos e eram remetidos para outros.
(Evidentemente aqui há um jogo entre as forças que dominam a sociedade e aquelas que, embora subordinadas, lutam por a transformar. As forças dominantes nunca estiveram interessandas em dar às massas trabalhadoras mais do que era requerido para a sua capacidade como forças produtivas na sociedade existente. Aliada essa formação laboral estava uma formação ideológica que tentava moldar e conter potenciais aspirações indesejáveis das classes trabalhadoras. Do lado destas, evidentemente, encontravam-se interesses diferentes: alcançar um nível escolar mais elevado, melhores remunerações e condições de trabalho; menores horários laborais.)
Actualmente há um novo tipo de segregação a que eu chamaria de diferenciação de sucessos: os "sucessos rascas" para um sector apreciável da população e sucessos de "qualidade diferenciada" para segmentos específicos e minoritários da sociedade. De facto para quê segregar através da marca do insucesso se podemos utilizar para todos a chancela do sucesso. Só que estes sucessos aparentemente iguais são mais iguais para uns do que para outros.
Tudo isto, ao fim ao cabo, segue as necessidades das nossas sociedades capitalistas de hoje: se as nossas sociedades são tão duais e tão segmentadas a começar pelo dito mercado de trabalho; e se a grande moda discursiva e real actual relativamente às políticas de educação é a de que estas devem estar ao serviço das necessidades do mercado de trabalho; percebe-se o rumo da educação:
-o nosso mercado de trabalho (refiro-me ao nosso mas utilizo em grande parte números provenientes de estudos norte americanos sobre as necessidades de trabalhadores) começa, em primeiro lugar por excluir uma quantidade considerável de trabalhadores - o desemprego dito estrutural- na ordem real dos 10 ou mais %, mantida quase indefinidamente nessa condição. Que necessidade tem os politicos "realistas" do nosso sistema capitalista de desenvolver um sistema educativo de qualidade para formar esses "párias"?
-apesar das balelas sobre a "sociedade do conhecimento" o nosso mercado de trabalho requisita e requisitará nas próximas décadas uma quantidade considerável de trabalhadores, especialmente na área dos serviços, cuja formação profissional específica requerida é muito reduzida. Bastam alguns dias para que os trabalhadores estejam formados para essas tarefas, desde que tenham adquirido anteriormente certas competências gerais básicas no sistema educativo. Para esse grupo substancial de trabalhadores, aquilo que se requer do sistema educativo não é muito exigente. Para uma convincente desmontagem desta questão ler aqui um texto esclarecedor.
-Restam no topo alguns grupos não muito numerosos de profissionais que requerem uma formação longa e de nível superior. Para esses o sistema educativo tem de dar respostas adequadas.
Para cada grupo de desempregados, de trabalhadores precários, de trabalhadores adaptáveis de formação reduzida, média ou superior é preciso encontrar o lugar, o acesso e o sucesso no sistema educativo. Mais do que o antigo não acesso ou insucesso, os sucessos relativos e específicos são, simultaneamente mais adaptados aos tempos modernos e mais digeríveis socialmente pelas opiniões públicas.
Repare-se em Portugal nos antigos e actuais números de exclusão e de insucesso na escola. Repare-se nas actuais (falo dos últimos 15 anos e da actualidade em particular) exigências de sucesso e nas medidas utilizadas para o obter. Não é isto que está a acontecer? Não é esta necessidade de conformar de forma suave o que se passa no sistema educativo às necessidades reais das nossas sociedades de mercado, o que se está a passar?
Por trás dos discursos há que ler as reais intenções.
Por trás das medidas há que desmascarar os motivos.
Aqui há uns anos o saudoso Rui Grácio dizia que o "insucesso escolar era o sucesso do sistema". Se estivesse vivo, com certeza veria necessidade de modificar essa expressão: agora o sucesso do sistema é mais subtil e vive de sucessos à medida.

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3 Comentários:

Anonymous IC disse...

Henrique, o texto para que nos remetes a dada altura deste post é de facto bem esclarecedor.
Não sei se vou dizer uma barbaridade, mas começo a pensar na necessidade de os professores se descentrarem do ECD para se voltarem para a denúncia do real significado das actuais políticas educativas (relativas ao ensino, aos alunos), voltadas exclusivamente para os interesses económicos e, portanto, para os interesses relativamente ao mercado de trabalho. Não são os professores sozinhos que vão conseguir lutar contra isso, claro, mas as lutas laborais sectoriais actualmente pouco ou nada demovem governos e, no caso do ECD, por agora está visto que nada mudará a não ser aspectos inconstitucionais que terão que cair por força deles mesmos. Penso que só numa ampla consciencialização de povos e em amplos movimentos se virá a conseguir fazer recuar a subserviência ao neo-liberalismo desenfreado, e que só um recuo nisso poderá ter efeitos quer na questão de fundo que é a escola pública e o direito à educação e ao ensino em igualdade de oportunidades, quer também nas próprias questões laborais.
Já não acredito que, neste momento, sirva de grande coisa lutar contra cada medida isolada, são as visões e objectivos globais que estão por detrás delas que têm que ser combatidos ( e de nada serve o partido do nosso governo chamar-se socialista, quem está no governo está lá para cumprir os ditâmes "globais")

Desculpa, Henrique, ocupar o teu espaço com este comentário - eu preciso mesmo de estar um tempo em intervalo no meu cantinho mantendo-o, enquanto isso, só para não o "fechar", e para questões que considero de fundo, isso então por agora não posso.

1:18 da manhã  
Blogger henrique santos disse...

Isabel
eu temia com os meus posts longos e sinuosos não conseguir transmitir o que penso. Felizmente encontrei em ti alguém que fez o favor de me ler e compreender.
De facto muitos de nós professores ainda não compreenderam que o que se passa connosco, e refiro-me à ofensiva contra a nossa profissão e estatuto, é algo que extravasa em muito uma questão profissional. E que depende de vaga transnacional em que existe uma correlação de forças muito desfavorável aos trabalhadores em geral; e em que os professores e os seus sindicatos, mesmo que estivessem todos unidos, dificilmente conseguiriam inverter.

2:45 da tarde  
Blogger IC disse...

Henrique
Vejo que já tens outro post, mas, depois de ter deixado aqui o meu comentário, senti que isto de andar a precisar de intervalo na escrita no meu cantinho não era desculpa suficiente aos meus próprios olhos e já lá deixei parte do comentário que escrevi aqui, com referência a este teu post e ao artigo.
Ao criar o meu blog, não tencionava sair do tema estrito da educação (se quisesse, criaria segundo blog), mas, na situação actual em que tudo decorre sob essa vaga transnacional, não é mais possível ficar pelo quotidiano das escolas e pelas medidas do ME vistas cada uma isoladamente.

4:07 da tarde  

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